Unplugged, com Sandy e sem Luana – DIA 2

CarroHoje amanhecemos com curiosidade de ver o estrago. Pela janela já dava para perceber que era enorme, dei café da manhã para as crianças, agasalhei-as e pegamos nossas lanternas. O corredor do prédio estava uma escuridão sem fim, mas a lanterna nos ajudou a achar a porta das escadas. Cinco andares com Lorenzo em um braço, carrinho pendurado em outro, lanterna na mão e olho nas escadas e na Luna que descia logo na frente iluminando o caminho com sua lanterninha. Acho que eu nunca tinha subido as escadas do prédio antes, nada parecia familiar, ainda mais sem iluminação alguma. Estava frio, mas a movimentação era grande, todos queriam ver a mesma coisa, o estrago que Sandy deixou. Assim que chegamos no lobby do prédio já percebemos a sujeira que deixou. Os vidros estavam muito sujos, folhas e lama grudados por toda parte. Pessoas procuravam saber quando a energia voltaria, e para minha surpresa, espanto e desespero, ouvi o que não esperava, que no mínimo demorariam de 4-5 dias, sendo otimista. Nessa hora me veio a cabeça todas as vezes que achei exagero ter que ir correndo comprar lanternas, baterias, água e alimentos. Pensei na minha comida da geladeira, que o mercado ficaria fechado, o quanto ainda teríamos de comida até que tivesse que providenciar mais, como carregaríamos nossos celulares, etc etc. Todo mundo estava assustado com essa notícia, que foi essencial para fazer muita gente fazer a mala e deixar os apartamentos em busca de vagas em hotéis e casa de amigos/familiares. Apesar de morar numa zona que não foi de evacuação, nosso prédio foi bastante castigado, não sei como ousam não nos incluir na zona A (a que corre mais risco e foi evacuação mandatória), já que estamos há 1 quadra do rio. O cenário foi árvores caídas, carros no meio da rua que foram arrastados pela água, motos no chão, placas de trânsito distorcidas, muita sujeira na rua, e os basements dos prédios inundados. O que mais impressionou no nosso quarteirão, foi um pilar de madeira, que deve ter vindo do rio, que foi parar em cima de um Mustang. Foi a atração, junto com um Mini Cooper (que inclusive pela minha janela, ví o dono tentando salvá-lo, mas teve que abandonar por que a água começou a invadir com muita força bem na hora) que de janelas abertas, ficou inundado por dentro e cheio de folhas secas.

Depois de andar pela redondezas, fomos atrás de algum lugar que vendesse bateria para nossas lanternas. O único lugar aberto era uma Deli na esquina, que para minha surpresa não estava enfiando a faca no valor das pilhas, estavam vendendo pelo mesmo preço que sempre venderam, achei espetacular não se aproveitarem desse momento para explorar as pessoas. Muita gente na rua, celulares na mão, mandando mensagens txt, e o assunto era apenas um, o furacão, as consequencias e os planos de fuga para não encarar uma semana sem luz, aquecimento e água quente que estavam por vir. Muita gente com mala, outras procurando wi-fi na frente do starbucks, carros ligados para carregar bateria dos celulares. Andamos até a Union Square e nada estava aberto, nenhum supermercado, banco nem farmácia. Procuravamos um lugar para comprar água, mas não achamos. Hora de voltar pra casa, fazer comida e planejar o que faríamos. A ordem era abrir a geladeira o menos possível para que o frio não fugisse, então pegavamos tudo rápido, e o almoço foi arroz, salmão e legumes. Confesso que até fiquei um pouco feliz com a falta de luz temporária, assim não teríamos computador para distrair e eu achei que conseguiria por minhas tarefas domésticas em ordem sem ter essa distração, mas esqueci do detalhe que sem energia a loça teria que ser lavada toda na mão, o banho demoraria mais pois teríamos que esquentar a água, no final acabou me dando mais trabalho e me deixando com menos tempo. Estreiamos a bizarrice que se prolongaria por dias, o banho deles na pia da cozinha. Esquentamos um caldeirão de água, esterelizamos a pia e Luna foi a primeira, e claro adorou a brincadeira, deixando Lorenzo ainda mais curioso para experimentar a nova atração da casa.

Com o dia anoitecendo mais rápido e sem luz, as crianças foram para cama mais cedo depois de brincarem no escuro, a luz de velas (supervisionados). Lorenzo já queria cantar parabéns e Luna apagar a chama. Nosso segundo jantar a luz de velas, foi mais um momento de conversa, desabafo, saudades da Luana. Fiquei preocupada com o que teriam feito com seu corpo, já que o plano era mantê-lo no freezer até quarta feira até que viessem coletar para a cremação mas sem energia, o freezer não funcionaria. O que adiantaria isso também, já que não havia mais vida alí? Estava difícil tentar não pensar nisso, não sentir a falta dela embaixo da mesa esperando Lorenzo jogar partes do seu jantar, mais difícil ainda estava tirar da minha cabeça a cena final dela, a minha, a volta, a falta. Vamos dormir que a dor também vai.
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6 Responses to Unplugged, com Sandy e sem Luana – DIA 2

  1. Nossa, que estrago! Mas Monica, se eles tivessem colocado vocês na zona A, vocês teriam acreditado e saído? Ou na zona A eles tiram as pessoas de casa na marra? Porque depois do ano passado ninguém estava acreditando muito que o Sandy seria tudo isso né…

    • Monica says:

      Oi Lu, pois é, não teríamos evacuado, na verdade a gente não corria risco aqui, o problema foi a enchente pegando lá embaixo mesmo…apenas teríamos 1 semana com luz, mas é tao complicado sair… A gente tanto nao acreditou que seria forte que nem tiramos a scooter aqui da rua… tadinha, ficou embaixo dágua!

  2. helo says:

    Oi Monica, to feliz em ler noticias suas. Chorei com vc no post anterior – que aperto no coracao. Fica bem!

  3. Mieline says:

    Oi Mônica! Que bom te ver por aqui, e bem! Estava preocupada, porque há dias tentava entrar e o blog sempre fora do ar, e seu último post triste e preocupante ao mesmo tempo. Fica com Deus!

  4. claudia says:

    Mônica te conheço de blog há muitos anos, mas venho aqui esporadicamente. Tentei algumas vezes mas até pensei que vc havia acabado com o blog. Hoje entrou e li sobre a Luana. Nossa, chorei como se a tivesse conhecido, só imagino que o vc passou. Nem tenho o que dizer porque a dor da perda é sempre proporcional ao que foi bom antes e sei o quanto o convívio lhe trouxe amor e alegria, Força e carinho 🙂

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